Panorama Nutricional Brasileiro

Tendências no Perfil Nutricional da População

O Brasil tem passado pelo que os cientistas denominam de “transição epidemiológica” no que diz respeito ao perfil de morbi-mortalidade e invalidez da população. Este processo abrange três pontos principais:

• Substituição da maior incidência de doenças transmissíveis por doenças crônico-degenarativas;
• Aumento da morbi-mortalidade em grupos de idosos e diminuição entre a população jovem;
• Predomínio da morbidade em detrimento da mortalidade1

O perfil de “transição” também é observado no universo nutricional. A mesma se caracteriza por mudanças nos padrões dietéticos e nutricionais tradicionalmente adotados. Observa-se a redução da prevalência de desnutrição e o aumento dos casos de sobrepeso e de obesidade na população brasileira2,3. Este processo não ocorre de maneira homogênea devido à grande extensão territorial do país e às sabidas diferenças socioeconômicas regionais. Em algumas localidades, ainda observamos alta prevalência de quadros de desnutrição e de deficiências nutricionais3.

A deficiência de micronutrientes, ao longo do tempo, vem se destacando como importante problema de Saúde Pública. Grande parte da mesma ainda se apresenta de forma subclínica, o que respalda a denominação desse tipo de carência nutricional como "fome oculta”13. Mesmo sendo o estágio anterior ao surgimento dos sinais clínicos, a fome oculta já compromete várias etapas do processo metabólico, como alterações no sistema imunológico e no desenvolvimento físico e mental do indivíduo. De acordo com o International Life Science Institute – ILSI, uma em cada quatro pessoas no mundo é afetada pela fome oculta, sendo a maioria em países em desenvolvimento14. Atualmente, determinadas doenças provenientes das deficiências de micronutrientes como ferro, vitamina A, iodo e zinco, tornaram-se altamente relevantes.

Anemia
As anemias mais comuns existentes em todo o mundo são a ferropriva e a megaloblástica. Em nosso país, a anemia ferropriva afeta 45% das crianças menores de cinco anos e 21% das mulheres de 15 a 49 anos5. Por sua importância no crescimento e desenvolvimento, o ferro é essencial na infância, na adolescência e no período gestacional6.
A anemia megaloblástica, causada pela baixa ingestão de vitamina B12 e folato (vitamina B9), também é muito observada11. A deficiência do folato é responsável por, aproximadamente, 200 mil nascimentos prejudicados severamente em países em desenvolvimento.
Além disso, as mortes causadas por doenças cardíacas podem estar associadas à deficiência de ácido fólico, cujo efeito produz hiperhomocisteinemia5. Segundo a Unicef, as anemias em sua forma severa causam 880 mortes por ano no Brasil5. A fortificação da farinha de trigo com ferro e ácido fólico foi adotada visando reverter este quadro.

Hipovitaminose A
A deficiência de vitamina A atinge o Brasil e mais 38 países de forma endêmica5. As crianças são as mais afetadas. Na fase escolar a deficiência desta vitamina afeta entre 2,8 e 3 milhões de indivíduos em todo o mundo. Dentre as crianças brasileiras menores de seis anos, 15% apresentam deficiência de vitamina A na forma subclínica5,6.

Deficiência de Iodo
Nos países em desenvolvimento, a deficiência de iodo ainda é muito freqüente. A ingestão diminuída deste mineral está associada ao desenvolvimento de bócio simples ou endêmico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou em aproximadamente 200 milhões a incidência mundial de bócio12. No Brasil, a deficiência deste mineral em mulheres grávidas causa o nascimento de 50 mil bebês mentalmente prejudicados. O uso de sal iodado é uma medida que vem sendo utilizada com sucesso na complementação da necessidade diária de iodo5.

Deficiência de Zinco
Lesões de pele, anorexia, hipogonadismo, retardo do crescimento e alteração na função imune são sintomas que podem ser observados em indivíduos com deficiência de zinco15. Mesmo com uma deficiência moderada, uma redução da função imunológica já pode ser observada12. Estudos de base populacional demonstram que a suplementação de zinco pode reduzir a prevalência de diarréias em até 20% e de pneumonia em até 40%5. Estas duas doenças são responsáveis por aproximadamente 40% de todas as mortes de crianças no mundo a cada ano5.

Sobrepeso e Obesidade
Apesar das amplas evidências que relacionam uma nutrição balanceada com prevenção e manutenção da saúde, os hábitos alimentares populacionais estão se tornando menos saudáveis de forma cada vez mais rápida7. Estudos mostram que em um período de 15 anos (1975 a 1989), a prevalência do sobrepeso, definido como índice de massa corporal (IMC) ≥ 25 kg/m2, aumentou 53% entre os adultos brasileiros com mais de 18 anos de idade10. Vários são os fatores relacionados ao desenvolvimento da doença: entre eles, o sedentarismo e o desequilíbrio alimentar8. Um estudo com crianças avaliou a variável sedentarismo na progressão dos quadros de obesidade. Observou-se que aquelas que assistiam TV por mais de duas horas por dia, praticavam menos atividades físicas e tiveram maior tendência a consumir alimentos não-saudáveis como refrigerantes e biscoitos, além de um baixo consumo de frutas9.

Uma das conseqüências mais graves desse estilo de vida é o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Elas são as principais causas de mortalidade no país16. Alguns dos fatores determinantes para o desenvolvimento desta enfermidade são as elevadas concentrações de triglicerídeos plasmático, colesterol total e sua fração LDL (lipoproteína de baixa densidade) associadas à diminuição nos valores de HDL (lipoproteína de alta densidade)17.

Estudos epidemiológicos sobre o perfil lipídico de crianças e adolescentes afirmam que o alto nível de colesterol na infância contribui para alterações no colesterol na vida adulta. O início da aterosclerose e o aumento do colesterol plasmático, já nestas idades, seriam potencializados no decorrer da vida pela obesidade e por uma série de outros fatores, tais como hipertensão arterial e história familiar17.

Referências


1) Schramm, JMA; Oliveira, AF; Leite, IC; et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doença no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. 9(4):897-908; 2004.
2) Guimarães, LV; Barros, MBA. As diferenças de estado nutricional em pré-escolares de rede pública e a transição nutricional. J Pediatr. 77 (5): 381-6; 2001.
3) Pinheiro, ARO; Freitas, SFT; Corso, ACT. Uma abordagem epidemiológica da obesidade. Rev. Nutr.. Campinas. 17(4):523-533; 2004.
4) Batista Filho, M.; Rissin, A. A transição nutricional no Brasil: tendências regionais e temporais. Cad. Saúde Pública. 19(Sup. 1):S181-S191; 2003.
5) Fundo da Nações Unidas para a Infância (Unicef). Vitamin and Mineral Deficiency. 2004.
6) Ghosh; K. Non haematological effects of iron deficiency – aperspective. Indian J Med Sci, Vol. 60, No. 1; 2006.
7) Ross, N. Health, happiness, and higher levels of social organisation. J Epidemiol Community Health.. 59:614; 2005.
8) Johnson, MA. Nutrition and Aging – Practical Advice for Healthy Eating. Journal of the american medical women’s association. Volume 59, No 4; 2004.
9) Salmon, J; Campbell, KJ; Crawford, DA. Television viewing habits associated with obesity risk factors: a survey of Melbourne schoolchildren. MJA. 184: 64–67; 2006.
10) Velásquez-Meléndez G, Pimenta AM, Kac G. Epidemiologia do sobrepeso e da obesidade e seus fatores determinantes em Belo Horizonte (MG), Brasil: estudo transversal de base populacional. Rev Panam Salud Publica. 16(5):308–14; 2004.
11) Kasdan T S. Terapia Clínica Nutricional para anemia. cap 35. In: Mahan L K, Escott-Stump S. Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 10° edição. Ed Roca; 2003.
12) Anderson J J B. Minerais. cap 4. In: Mahan L K, Escott-Stump S. Alimentos, Nutrição e Dietoterapia. 10° edição. Ed Roca; 2003.
13) Ferraz I S, Daneluzzi J C et al. Prevalência da carência de ferro e sua associação com a deficiência de vitamina A em pré-escolares. J. Pediatr.vol. 81, no. 2; 2005.
14) International Life Sciences Institute. http://www.ilsi.org
15) Sena K C M e Pedrosa LFC. Efeitos da suplementação com zinco sobre o crescimento, sistema imunológico e diabetes. Rev. Nutr. v.18 n.2; 2005.
16) III Diretrizes Brasileiras Sobre Dislipidemias e Diretriz de Prevenção da Aterosclerose do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia; 2001.
17) Grillo LP e Crispim SP. Perfil lipídico e obesidade em escolares de baixa renda. Rev. bras. epidemiol. v.8 n.1; 2005.

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